• Marcia Telles

A QUEDA


Marcou minha memória este texto de Millor Fernandes (A QUEDA), que li na semana em que Fidel Castro caiu após um discurso e, hoje, ao saber da morte dele, lembrei que havia guardado o texto em meus arquivos. Vale a pena ler pois refere-se à nossa condição humana.

Já a figura escolhida para ilustrar o texto é de um filme que, a meu ver, também merece ser visto, A CULPA É DO FIDEL, filme francês dirigido por Julie Gavras.


Segue o texto



Um tombo, um deslize físico, um salto no espaço,

e está em toda a divulgação do mundo sem fronteiras:


A QUEDA

É terrível cair. Não é apenas o orgulho que cai quando caímos mas toda a segurança interior. Equilíbrio de cérebro e pessoa.

Caindo, nos perdemos, e alguma coisa fica lá, em toda queda. Algo irrecuperável, alguma perda total e absoluta. Para sempre e um dia. Parte de um todo nosso interior jamais recuperado. Caímos e jamais nos levantamos outra vez os mesmos.

Tudo que é vivo teme a queda. Vive em função da queda que virá, fatal, em momento e hora insuspeitados. Homem, bípede mal equilibrado. Diminuímos o efeito da queda pela espera da queda e chamando-a de outros nomes: Tropeção (que é semiqueda), Trambolhão (que é quase queda), Esparramar (que é queda e meia). Eufemismo, tudo para o efeito único, moral e contundente Da palavra sinistra, Fato e fator, Acontecimento físico e Metafísico. OS QUE JÁ CAÍRAM, AH! No Paraíso, na rua, na História, Na escada. Caiu Humpty Dumpty Na aventura de Alice. Caiu a própria Alice. Caiu a mãe de Hamlet, Caem as folhas no outono, Mais tristes quando cai a tarde. E depois do primeiro homem E da primeira mulher Todos os grandes caem Em seu dia e hora.

Caiu Saul, e Jonas, e Golias, E também os muros que cercavam Os poderosos donos de Jericó.

Caiu Tróia e caíram os romanos. Lúcifer levou nove demorados dias Em sua assustadora queda, A mais profunda queda registrada.

Há grandeza nos homens que caem.

Não se respeitam, porém, as decaídas. Mas ambos ocupam o mesmo lugar Na composição eterna da caída Humana. A gravidade é a negação da vida Desde a invenção dos tempos.

Millor Fernandes - 2004

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