• MARCIA TELLES

A gente sabe demais

Entende para além do que é dito, lê e ouve coisas demais. A gente sabe o que uma emissora vai dizer sobre um acontecimento, o que um portal de notícias vai recortar como manchete. A gente pensa pouco e sente quase nada, porque sabe muito do outro, mesmo que ele diga nada ou quase nada.


A gente sentencia e diagnostica o outro e a vida rápido demais, a gente cancela fácil, a gente se circunda de gente do nosso tipo a tal ponto, que pensamos ser os donos da "porratoda", os verdadeiros leitores do mundo.


A gente pensa que se empoderando, se enchendo de si mesmo, então, não precisa do outro, esse erro na nossa vida. A gente acha que a diferença é toxica, que o outro deveria ler o mundo a partir da nossa perspectiva, que é certa e óbvia.


A gente escuta um pedaço da frase do outro e já sabe o que ele vai dizer. A gente para de escutar o outro e se põe a pensar numa resposta para o que o outro não perguntou. A gente conversa com a gente mesmo espelhado em outras pessoas.


A gente sabe tanto...só não sabe que saber demais elimina o outro. Nos esquecemos que é não sabendo que a gente se aproxima, que é pela falta que a gente faz laço.


A gente faz que não sabe que é preciso se desarmar, se desmurar para que algo do outro nos toque.


A gente se esforça para fazer que não sabe que o amor, esse fanfarrão, se aproxima ali onde o saber manca. E se temos uma queda por aquele que desconhecemos, isso não é porque o outro oculta, joga, esconde. Mas porque, em última instância, jamais sabemos tudo sobre o outro, esse mistério.










Fonte: Ana S