• Marcia Telles

Felicidade fora de hora


A felicidade é uma das sensações divinas que o cérebro nos proporciona. Mas a felicidade em excesso, quem diria, pode ser um problema tão grave quanto a tristeza maligna da depressão - ou até pior. A tristeza em si não é ruim. É muito importante ficar triste quando isso é o que as circunstâncias pedem: a morte de uma pessoa querida, a perda do emprego, a mágoa causada sem querer em alguém. Por ser um estado desagradável, a tristeza sinaliza ao cérebro eventos ruins e faz com que busquemos evitá-los no futuro. A tristeza só se torna um problema quando acontece apesar das circunstâncias: quando tudo vai bem, mas o cérebro, deprimido, enxerga infelicidade por onde passa. Tristeza não é doença, mas a tristeza injustificada é.

Assim como é possível ficar triste fora de hora, a felicidade inadequada, exagerada para as circunstâncias, também existe: é a mania, distúrbio que não deve ser confundido com a compulsão de lavar as mãos ou trancar a porta e que não necessariamente se alterna com depressão como no transtorno bipolar.

A mania é um estado constante de euforia em que o cérebro, com o sistema de recompensa excessivamente ativo, considera suas idéias maravilhosas e encontra motivação para fazer qualquer coisa. A necessidade de sono é reduzida; o maníaco é cheio de energia e de idéias, expansivo, falante e engraçado. À primeira vista, soa ótimo mas é um problema e tanto. Se a felicidade justificada de terminar um trabalho ou de encontrar uma pessoa querida é uma benção, prêmio conquistado e merecido, a felicidade infundada é uma maldição.

Impelido pelo sistema de recompensa hiperativo, o cérebro perde o freio e toma decisões insensatas que lhe parecem fantásticas, como comprar dez sapatos e três carros sem ter dinheiro para isso. Como sua auto-satisfação é enorme, o maníaco age conforme suas idéias grandiosas e despreza quem não concorda com ele. A mania faz com que a pessoa destrua sua vida pessoal e profissional mas ache que tudo vai bem. Para o maníaco, o problema está nos outros, que discordam de suas "idéias maravilhosas", "invejam sua alegria" e querem "curá-lo da sua felicidade". Quem sofre de mania dificilmente quer tratamento e várias vezes só chega ao médico forçado pela família, exausta. Afinal, como convencer uma pessoa eufórica de que felicidade tem hora?


Suzana Herculano-Houzel - 2007


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