• Marcia Telles

Dia dos Pais - Filhos são bumerangues cuja trajetória não se pode adivinhar


Filho, eu te amo, mas talvez nada do que eu faça faz tanta diferença no futuro. A gente acha que sim. Tenho fé que os filhos resultam mais dos gostos e vontades dos pais, do que das coisas e pessoas que vão conhecendo por conta própria. A gente custa a entender que filhos não são drones guiados por controle remoto por alguém sentado no sofá de casa bebericando café e lendo as notícias do dia.


Filhos são bumerangues cuja trajetória não se pode adivinhar. Uns voltam pra casa, outros se perdem no mundo. Uns preferem seguir o exemplo do pai, outros o rejeitam. Uns envelhecem depressa. Outros levam a vida inteira nisso. O tempo escorrega, balança, tumultua, acalma e avança aos solavancos. Tem hora que parece que nada está acontecendo. Tem hora que é o contrário. É esquisito, mas é como são as coisas. Em qualquer situação, eu vou estar do seu lado.

Quando crescer, não se intimide com erros, ainda que sucessivos.


Você verá por si mesmo: na maioria das vezes, quando os mais velhos falam de sucesso, estão se referindo a conforto material e a um futuro sem sobressaltos, casamento e, claro, filhos. Quando falam de fracasso, estão pensando em andar de ônibus ou a pé, filhos na escola pública e dividir uma fila com gente pobre no aeroporto. Quer um conselho: relativize o sucesso e o fracasso.


O roteiro é clichê, eu sei, mas continua atual: na adolescência, perguntam pelas namoradas, assim mesmo, no plural – se for menina, querem saber do namorado, no singular. Se o namoro engata, começam a interrogar sobre quando os pombinhos vão juntar as escovas de dente. Se você casa, agoniam-se: e o apartamento próprio? Quando finalmente vocês conseguem juntar uma pequena fortuna para comprar um e decorá-lo com os pôsteres dos filmes que vocês mais gostam e dançar na sala ouvindo as músicas que mais curtem, a dúvida passa a ser outra: já programaram filhos? E acrescentam: é bom começar cedo.


Quero acreditar que as pessoas não fazem isso, encaixotar a vida, por maldade. Acho que é mais porque desejam, talvez até involuntariamente, estar no controle de tudo. Se você quiser experimentar essa vida-padrão, filho, fica à vontade. Se quiser uma vida-lazer, também. Nas duas hipóteses, dentro ou fora da caixa, saiba que pode contar comigo.


E se, ao cabo de muitos anos, talvez décadas, você olhar pra trás e sentir uma pontada de melancolia ou se chatear porque podia ter feito tudo de outra forma, não se afobe. A vida tem disso frequentemente. Basta abrir o cardápio da pizzaria que a tortura começa: calabresa ou peperoni, borda recheada ou simples, suco ou refrigerante. Ou entrar no Netflix para se afligir: diante de tantas escolhas, nenhuma parece boa o suficiente e a gente fica com essa sensação incômoda de que está assistindo ao filme errado.


Isso é bobagem: o filme que a gente escolhe é sempre o filme certo para o dia, a hora, o ano, o lugar e a idade que vivemos. Mesmo se for errado, é o filme certo. E isso você só vai entender mesmo quando crescer.











Fonte: H. Araújo Opovo.dom

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