• Marcia Telles

Felicidade: uma obsessão contemporânea

Nada contra a felicidade, afinal quem poderia ser? A questão é o lugar que ela ocupa em nosso horizonte. A busca da felicidade tornou-se uma obsessão contemporânea. A felicidade é concebida como um bem pessoal, completamente descolada do contexto em que se vive, e que pode ser obtida individualmente.


Quem a experimenta nunca aprende a fugacidade de sua natureza e pensa poder produzi-la artificialmente, sem esforço, e sem estar engajada numa empreitada do mundo real. A toxicomania (embora não vamos reduzi-la a essa leitura) é o único exemplo logrado, embora de curtíssimo alcance, duma felicidade alcançada diretamente. A drogadicção contemporânea deve muito a essa ética em que a obra de uma vida seria gozar e nós sabemos o preço que pagamos por isso.


A depressão é o mal do fim do século justamente por que a felicidade seria nosso bem supremo, estar para baixo é tão mal tolerado por que rompe com o ideal. Como se não bastasse as vezes estar triste agora todos nos vem dizer que isso é errado.


Qualquer olhar, mesmo que otimista, sobre a sociedade humana, a fragilidade do homem atual e os laços débeis que o unem aos seus semelhantes pensaria em ser mais cauteloso na expectativa de ser feliz. Mas não é assim que nos comportamos, exigimos-nos ser felizes a maior parte do tempo e não aceitamos nada menos do que isso.


Nossos antepassados se contentariam apenas com ser menos infelizes, eles não acreditavam que a vida fosse a busca da felicidade, a felicidade seria um lucro a mais para quem faz as coisas certas. Caso a felicidade não viesse, azar, ser infeliz é difícil, mas a vida era assim para a maioria. Não se tratava de uma maior resignação sobre o pouco que seria a nossa cota de felicidade e sim que entendiam que há uma dor por existir que é inevitável, que o próprio do humano é ser limitado. A tristeza era dura, mas fazia parte da vida e não era encarado como um problema de fracasso pessoal.


A questão é que a felicidade é um subproduto, e aliás é assim que a felicidade sempre se mostra a nós. Aparece quando não a procuramos e sim como efeito paralelo, não necessário e as vezes não esperado, de um outro objetivo. Não a dobramos, ela continua caprichosa, e nos seduzindo de que possa ser um fim em si mesmo, e os trouxas aqui atrás.







Fonte: ZHora

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