• Marcia Telles

Não perturbe

Quartos de hotel são um limbo necessário.

Terra de ninguém, isso é um clássico quarto de hotel. Os quadros serão meramente decorativos, o ambiente tem que ser paradoxalmente impessoal e acolhedor, sem marcas dos habitantes anteriores. Como uma prostituta dos ambientes, não entregará nada além do previamente pago e acordado. Recebe-nos com competência e nos expulsa com constrangedora objetividade. Numa espécie de vingança, deixamos para trás lixo e bagunça sem dó, mas percorremos os cantinhos temendo esquecimentos. Os lugares ocupados tornam-se ciladas, gavetas e armários parecem querer roubar-nos, prevalecer-se da confiança que lhes depositamos.


Há uma cena no livro As Horas, de Michael Cunningham, na qual Laura, uma dona de casa grávida e desmotivada aluga um quarto de hotel por um tempinho: busca um lugar onde não tenha que desempenhar nenhum tipo de papel. O hotel é não estar em parte alguma, imperturbável, a imaculada ausência de cheiros, o ir e vir vigoroso, impassível. Tira os sapatos e, sobre a colcha esticada deita-se para retomar sua leitura de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Na verdade, pondera sobre o suicídio, cometido por um ex-combatente traumatizado e enlouquecido, personagem do livro e por sua autora.

Ali, naquele lugar peculiarmente vazio, ela escolhe continuar existindo. Morrer seria uma maldade com os seus, um gesto que abriria um buraco na atmosfera, através do qual tudo aquilo que criou seria sugado. O suicídio não a tentava de fato, apenas queria viver por escolha.


Dormir fora, mas sem estar na casa de ninguém, conecta-nos com certa autenticidade: é onde não somos ninguém que melhor nos conhecemos. Ali podemos terminar trabalhos pendentes ou descansar das jornadas turísticas, entregar-nos à intimidade sexual, ou mesmo viver angústia da eminência de uma palestra, reunião ou encontro e voltar com a ressaca do dever cumprido. Tenho duas amigas escritoras que acham hotéis inspiradores para pensar, como fez a dona de casa frustrada. Roupas sujas, souvenirs, sacolas de compras, shampoos ruins e toalhas sempre pequenas demais…


Talvez, das sempre desejadas férias, os hotéis (ou similares) sejam uma das partes mais importantes. É neles que ficamos à vontade no anonimato, que é a melhor parte das viagens. Precisamos ser amados e importantes, mas isso também exaure. Os vínculos exigem-nos estar à sua altura deles, alimentam mas também sugam, até o ponto em que não temos a menor ideia de por que vivemos. Um quarto de hotel é um limbo necessário. De tanto em tanto é preciso sair da vida, olhá-la de fora, o que é diferente de morrer. Só que na volta é sempre bom ter algo à nossa espera, nem que seja o cheiro peculiar da nossa casa e a confiança nas gavetas.






Fonte: Zero hora

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