• Marcia Telles

Quando o seu bem é o seu mal


O que faz pessoas inteligentes e, supõe-se, saudáveis emocionalmente insistirem em eleger os piores parceiros? Há quem se relacione com dependentes químicos abusadores, infiéis contumazes, gente agressiva ou aproveitadora. Entre alguém sério, fiel, e outro sedutor ou até mau-caráter, dão preferência ao segundo. O problema não se localiza no parceiro ou na parceira errados, mas na pessoa que insiste em ligações frustrantes. Para o psicólogo suíço Carl Jung (1875-1961), possuímos um lado consciente e outro inconsciente, desconhecido. A uma parte do inconsciente deu o nome de sombra. Aí se abrigam, em função de um ideal de ego (devemos ser perfeitos, altruístas, bons), os aspectos negativos da personalidade. Contudo, mesquinharia e maldade são próprios do ser humano. Por isso reprimimos a nossa agressividade, a inveja e a maldade, que se alojam em nossa sombra. Quando menos esperamos, mas sempre nos momentos de fraqueza psicológica ou de tensão, a sombra aparece e nos ataca. Perdemos o controle e agimos com raiva e hostilidade, o que não combina com nossas maneiras. Ficamos como que possuídos; de fato, é nossa sombra que nos possui. Por exemplo: uma jovem se casa e todos a consideram calma e delicada. Um dia, em acesso de ciúme, bate no marido e diz o que nem ela se imaginava capaz de dizer. A sombra tem também aspectos positivos reprimidos. Um exemplo é a criatividade, refreada para a pessoa ajustar-se à rotina, à escola, ao trabalho. Pode-se dizer que um homem de talento artístico, esgotado pelo trabalho, ficou com a criatividade na sombra. De outro lado, como projetamos tudo que é inconsciente, atribuímos ao outro os aspectos de nossa sombra. Isso talvez ajude a explicar as escolhas negativas. Por exemplo, se uma pessoa muito doce e delicada escolhe um parceiro de mau caráter, agressivo ou infiel sentimos pena dela. É tão boa e abnegada tendo que conviver com tamanho monstro. Mas é provável que as relações sejam complementares: o outro corresponde a um aspecto dela, que reprime a sua agressividade ou a vontade de ser infiel; vive, assim, seus aspectos negativos através do outro, e talvez considere justificado se tornar infiel também, em especial se o parceiro ficar fraco ou doente.

No conto de fadas Barba Azul, a heroína se casa com o assassino apesar de saber que todas as suas mulheres anteriores desapareceram. Existe uma atração por esse lado sombrio, negativo, representado por um homem poderoso. Quanto mais claro e brilhante um aspecto da pessoa (é mansa, controlada), mais forte a sombra agressiva; o oposto, uma pessoa agressiva, descontrolada, pode ter suavidade na sombra, que emerge em momentos de tensão. Quando chora no cinema, por exemplo. Na paixão idealizamos o outro, que deve corresponder a uma imagem interna que nele projetamos. A interna traz também nossos aspectos negativos, sombrios. Com a proximidade deixamos de idealizar e aspectos negativos aparecem, os da pessoa escolhida e os nossos. E ambos nos tornamos o que verdadeiramente somos. O filme de Roman Polanski (72) Lua de Fel é um exemplo de paixão que se torna ritual de humilhação - a história descreve uma relação sadomasoquista. Esta é uma das maneiras de se explicar o paradoxo: por que sempre queremos o mais difícil, e o impossível nos atrai tanto. O que nos atrai é o desconhecido, no qual podemos projetar e idealizar nossos desejos. A canção Meu Bem, Meu Mal, de Caetano Veloso (63), o expressa: "Onde o que eu sou se afoga/ meu fumo minha ioga/ você é minha droga/ paixão e carnaval /meu zen, meu bem, meu mal." Para evitar escolhas erradas, é importante ter consciência do que nos motiva. A maior lucidez permite que não se siga uma paixão às cegas. E que, ao assumir uma ligação, se consiga equilibrar os aspectos positivos e negativos de um e de outro. * Leniza Castello Branco, psicóloga e analista junguiana

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