• Marcia Telles

Nem todo jovem gosta de “ficar” e não existe nada de errado nisso




Puberdade e adolescência são um período de transição, quando a criança se desprende dos pais em favor de grupos de sua faixa etária. A opinião do grupo se torna cada vez mais significativa, empurrando para a periferia a importância da aprovação dos pais, embora estes, no inconsciente do adolescente, continuem a ser o esteio de segurança. Mas a ideologia do grupo exerce poderosa pressão sobre o jovem. Uma ideologia corrente atual é a do “ficar”, que significa encontros sem compromisso. O “ficar” é um valor positivo nos grupos adolescentes. Como ninguém quer estar out, este valor é exercido pelos jovens. Mas há os que não se sentem bem com tal prática. São vários os fatores que levam os jovens a gostar ou não do “ficar”. Darwinianamente falando, como as mulheres produzem relativamente poucos óvulos na vida fértil, têm de escolher o parceiro sexual mais perfeito possível. Então fazem uma seleção cuidadosa, não se deixando fecundar por qualquer um. Já o homem, cujos órgãos sexuais produzem milhares de espermatozóides, busca garantir a transmissão e a sobrevivência de seus genes fecundando o maior número de fêmeas possível. Nós, humanos, estamos longe desse nível biológico; mas, quando se faz um levantamento mais global, é mais um fator a levar em conta. O psicanalista húngaro Michael Balint diz que cedo se desenvolvem no ser humano tendências para o apego ou desapego ao objeto de amor. Poderíamos dizer que no “ficar” predomina o desapego e no namorar predomina o apego. Teríamos, portanto, dois tipos de pessoas: um com medo de intimidade, precisando passar de parceiro para parceiro, e outro com medo da novidade, da aventura, precisando se fixar em algo conhecido. Essas duas tendências existem conjuntamente em proporções diferentes nas pessoas. Mas em algumas a predominância de uma é tão poderosa que a outra renuncia à sua expressão. Outro fator é a ideologia dos pais. Embora, como disse, em certo período da vida o jovem a abandone para adotar a ideologia do grupo, o abandono total é uma impossibilidade, pois a influência dos pais penetra na psique dos filhos. Ela pode diluir-se quando outros fatores entram em jogo, mas sempre estará presente. Assim, se a mentalidade da família for conservadora, o jovem ou terá mais dificuldade com comportamentos liberados ou os realizará de forma exagerada, como reação à poderosa proibição interna que carrega. Fazem parte também do equipamento pessoal a curiosidade pelo novo, pelo perigo e o gosto pela segurança, pelo conhecido. Portanto, muitos são os fatores envolvidos e sua resultante dependerá do jogo de forças entre eles. Poderá ocorrer de o jovem se ver impulsionado a adotar comportamento diferente do dos amigos, o que o fará sentir-se excluído, inferiorizado, incapaz de acompanhar seu grupo etário. Então os pais, valendo-se da vinculação filial, podem se apresentar para auxiliá-los. Mas deverão ser discretos, pois os filhos, mesmo precisando de reconhecimento e apoio para o comportamento divergente de seu grupo, mantêm o desejo de independência dos pais. O apoio e a aceitação deverão ser oferecidos com cuidado para que o jovem não sinta que estão querendo lhe retirar a independência.



Nahman Armony

#Nemtodojovemgostadeficarenãoexistenada